
No DF, a folga virou mercadoria — e a PM ainda quer punir quem pede dignidade
Entre 2024 e 2025, o Distrito Federal viu um salto assustador no número de suicídios entre seus policiais militares: de 3 casos em 2022–2023 para mais de 15 nos dois anos seguintes. Isso não é “número”. É sintoma de um ambiente que adoece: perda de previsibilidade da vida, pressão permanente, assédio institucional que corrói a autoestima, e um modelo que trata a folga como favor — quando é direito fundamental previsto constitucionalmente.
Anuário Brasileiro de Segurança Pública 2024
Quando o Estado empurra o limite e chama de rotina, a conta não vem em boletim interno; vem em tragédia.
O pano de fundo é conhecido na tropa e ignorado no alto comando: a folga perdeu respeito. Na Polícia Militar do Distrito Federal, policiais são obrigados a trabalhar no período que deveriam estar descansando — um desrespeito que corrói a saúde, empurra a vida pessoal para o fim da fila e cristaliza a lógica cruel de que o policial deve estar sempre disponível, mesmo quando a Constituição garante o contrário.
Voluntário ou “vai, otário”?
A perversidade se mostra ainda mais evidente quando se observa que, pela mesma quantidade de horas trabalhadas, os militares recebem R$ 120,00 a menos do que outros agentes de segurança pública — uma diferença que não é detalhe contábil, mas sinal de desvalorização governamental.
Na Polícia Civil e na Polícia Penal, por exemplo, não existe esse modelo inconstitucional de obrigação sistemática de sacrificar a folga; quando há extra, ocorre por adesão voluntária, e o valor gira em torno de R$ 400,00. Ou seja: no mesmo território, o Estado trata servidores armados, sob risco, com réguas diferentes — e a régua mais cruel cai justamente sobre quem já carrega o peso da rua.
A mensagem institucional fica explícita: para alguns, a folga é direito protegido; para o PM, é peça de reposição.
Isso se explica em números, não em metáfora: a lei (12.086/2009) prevê 18.673 policiais militares no DF, mas o efetivo informado em 2026 é de 10.551 — um buraco de 8.122 a menos, deixando a corporação operando com pouco mais da metade do que a própria norma determina. Nesse cenário, com população crescendo e demanda só aumentando, o “planejamento” vira remendo: em vez de recompor o efetivo, o sistema reusa o mesmo policial até a exaustão. É aí que o PM vira “peça de reposição”: quando falta gente, o Estado não corrige a estrutura — empurra a carga para quem já está fadigado, e a folga vira o primeiro direito a ser triturado.
E ainda chamam de voluntário. Voluntário pressupõe escolha real — mas não há opção “livre” quando a estrutura te estrangula. É coação travestida de escala. É o descanso convertido em esmola.
O ponto mais absurdo
Quando alguém levanta a bandeira da saúde e do direito ao descanso, a reação institucional não é corrigir o abuso — é sufocar o debate. Punir “curtida”, punir concordância, punir solidariedade. Isso não é disciplina; é intimidação. É gestão do medo para que ninguém mais ouse encostar no tema.

Publicação no perfil @cabovitorio que motivou a abertura de procedimento contra 177 policiais militares.
Porque o que está em jogo aqui não é opinião. É um núcleo constitucional: descanso, saúde e proteção contra retrocessos. Quando o Estado desmonta o direito à folga e transforma o mínimo em privilégio, empurra a tropa para o limite — e ainda tenta criminalizar o termômetro que denuncia a febre. Depois, claro, finge surpresa quando o limite cobra a conta.
Na PMDF, demonstrar interesse por direitos virou alvo de procedimento disciplina
A PM abriu procedimento interno contra 177 policiais por um motivo que expõe o absurdo: curtiram uma publicação. Não assinaram manifesto, não convocaram motim, não participaram de ato público — apertaram um botão numa rede social em um post que denunciava o que muitos já dizem no privado: “sua saúde vale mais do que R$ 295 por 8 horas de serviço”.

Ao enquadrar uma curtida como conduta a ser apurada, a corporação evita discutir o que está sendo denunciado — condições, escala, pagamento — e desloca o foco para o mensageiro; pior, passa a mirar quem apenas sinalizou que o tema importa.
Esse tipo de procedimento não serve para “organizar a tropa”. Serve para isolar a ideia e educar pelo medo: hoje o alvo é quem curtiu; amanhã é quem ousar reclamar do excesso de escalas; depois é quem disser que precisa proteger a própria saúde e passar mais tempo com a família; por fim, é quem simplesmente não se “voluntariar”. O resultado é o silêncio induzido — e silêncio induzido não é disciplina: é controle de pensamento.
Se nem compartilhar configura ilicitude, quanto mais uma curtida: o STJ já fixou a linha
O STJ já deixou claro que o mero ato de compartilhar uma notícia, sem circunstâncias concretas que revelem intenção dirigida a atacar superior ou disciplina, não é suficiente para responsabilização penal.
“Não é suficiente, no entanto, para fins de responsabilização penal, o mero ato de compartilhar dada notícia, sem que se aduza qualquer circunstância que possa identificar, no ato de compartilhar, o animus dirigido a reproduzir uma crítica ao "ato de seu superior ou ao assunto atinente à disciplinar militar" (CPM, art. 166).”
(RHC n. 75.125/PB, relator Ministro Nefi Cordeiro, relator para acórdão Ministro Rogerio Schietti Cruz, Sexta Turma, julgado em 25/10/2016, DJe de 18/11/2016.)
Se compartilhar não basta, curtir é ainda menos: é gesto mínimo, sem conteúdo próprio e sem qualquer comando. Tratar isso como infração é trocar disciplina por perseguição e usar o direito como pretexto para intimidar.
Quando “voluntário” vira caso de polícia, é porque nunca foi voluntário
Antes de qualquer debate sobre “disciplina”, existe um fato que a própria PMDF colocou em cima da mesa: se uma curtida vira procedimento, então o problema não é a conduta do policial — é o tema. Instituição segura do que faz não mobiliza corregedoria para caçar gesto mínimo; responde com transparência, corrige distorções, explica regra. Aqui, a opção foi outra: transformar 177 policiais em aviso, para deixar claro que esse assunto não pode circular.
O “voluntário” só precisa ser defendido com punição quando, na prática, funciona como obrigação: um modelo sustentado por pressão, não por escolha. Se fosse adesão livre, a corporação não trataria interesse como ameaça. Quem reage assim está protegendo um mecanismo — não uma norma — e tentando impedir que a sociedade tome conhecimento ao que a tropa vive.
A instauração de procedimento por curtida não é um detalhe — é uma prova indireta do mecanismo que a publicação denunciava. Um sistema realmente voluntário não precisa patrulhar a rede social para se sustentar; ele se sustenta pela escolha. Quando a instituição reage com punição ao simples gesto de interesse, ela deixa claro que o “voluntariado” é parte de uma engrenagem de pressão: quem não adere vira problema, e até quem apenas toca no assunto vira alvo. Isso não é gestão de pessoal; é controle para manter uma obrigação disfarçada funcionando.
A PMDF julga o gesto — e foge do fato: é a curtida ou a realidade que ela expõe?
Há uma diferença essencial entre punir ato funcional e punir quem segue ou curte um crítico. A PM pode exigir regras no serviço; o que ela não pode fazer é transformar rede social em campo de caça a simpatizantes de um jornalista. Porque, quando a instituição passa a tratar o simples reconhecimento de um problema real como infração, ela não está protegendo hierarquia — está sufocando o direito de expressão e blindando o tema que deveria ser enfrentado: por que tantos policiais se identificaram com a denúncia a ponto de curtir?
A pergunta que fica para a corporação é simples e incômoda: o que está em julgamento — uma curtida ou a realidade que ela expõe?
Absurdo
ResponderExcluirEsse tipo de ação, que trata o trabalhador policial como bandido, não cabe com quem vive de caçar ladrão, traficante, defender mulheres de agressão...
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