Mensagens recebidas pela reportagem revelam, de forma explícita, a organização de arrecadação financeira via PIX para custear outdoors com imagens de políticos do Partido Liberal (PL) no Distrito Federal, utilizando como intermediária a conta do Clube dos Oficiais do Corpo de Bombeiros Militar do Distrito Federal (CBMDF).

Nos textos, encaminhados em grupos de WhatsApp frequentados por bombeiros, a 2º Tenente Rosimeire Cardoso de Oliveira de Carvalho Saisse apresenta a arrecadação como uma “homenagem” ao deputado distrital Roosevelt Vilela e a outras autoridades. A finalidade, porém, é objetiva: financiar outdoors com a imagem dos políticos, associados a mensagens de agradecimento e projeção pública.

Quem é Rosimeire?

A atuação da 2º tenente Rosimeire Cardoso de Oliveira de Carvalho Saisse não surge de forma isolada nem casual nesse episódio. Atualmente, ela ocupa o cargo de vice-presidente da Diretoria Executiva do Clube dos Bombeiros, posição que lhe confere trânsito institucional e capacidade de mobilização dentro do meio associativo e militar.

Antes disso, Rosimeire foi assessora diretamente vinculada ao gabinete do deputado distrital Roosevelt Vilela, tendo sido formalmente nomeada para o Cargo Especial de Gabinete (CL-01) na Câmara Legislativa do Distrito Federal, quando foi requisitada do CBMDF.

A sequência dos fatos revela um encadeamento funcional e político. Primeiro, a ocupação de cargo comissionado no gabinete de Roosevelt Vilela; depois, o deslocamento para posição estratégica em entidade associativa ligada à base militar; por fim, a atuação direta na difusão de mensagens de arrecadação financeira destinadas a custear propaganda política. 

O percurso indica continuidade de vínculos e uso estratégico de posições institucionais, e não uma iniciativa pessoal desconectada do ambiente político que a antecedeu.

A “homenagem” funciona, na prática, como método de cobrança

As mensagens não pedem colaboração espontânea: elas condicionam a contribuição financeira a benefícios funcionais concedidos recentemente à tropa, como reajuste salarial, promoções e o retorno de veteranos ao PTTD, apresentado nos textos como “lei de autoria do nosso deputado”.

“Transformam políticas públicas e atos administrativos em moeda simbólica de cobrança”, resumiu um militar ouvido pela redação, que preferiu não se identificar por temor de retaliações.

Militares exonerados do PTTC e do PTTD esclareceram como tem funcionado a lógica dentro da corporação: quem foi beneficiado, retribui — se não, é rua. A contribuição aparece revestida de gratidão, mas se dá em ambiente hierarquizado, no qual a negativa não é neutra e tende a produzir constrangimento e exoneração.

Arrecadação organizada, não casual

O conteúdo das mensagens revela uma estrutura que vai muito além de um pedido eventual de ajuda. Há finalidade previamente definida, com indicação expressa de que os recursos seriam usados para a confecção de outdoors com a imagem de políticos específicos. Não se trata de apoio genérico ou causa difusa, mas de destinação determinada, conhecida desde o primeiro contato.

A sugestão de um valor padrão de contribuição — “R$ 100,00” — afasta qualquer noção de voluntariedade. Quando há quantia previamente indicada, ainda mais em ambiente marcado por pressões e chantagens veladas, não há espontaneidade: há imposição disfarçada de contribuição.

O canal financeiro também não é neutro. O PIX não é direcionado ao beneficiário político final, mas à conta do Clube dos Oficiais, identificada por e-mail institucionalizado. A escolha não é casual. Além de centralizar os recursos e permitir controle concentrado da arrecadação, ela cria uma camada intermediária deliberada, afastando o dinheiro do destino político imediato e dificultando a identificação do real financiador, o vínculo direto com a propaganda e o rastreamento eleitoral instantâneo.

Por fim, a inserção explícita da ressalva de que “a ação é voluntária” funciona como blindagem discursiva preventiva. A própria necessidade de afirmar a voluntariedade indica consciência do risco jurídico e institucional da prática. 

No conjunto, esses elementos afastam qualquer interpretação de colaboração aleatória e expõem uma organização mínima de arrecadação, com método, direcionamento e centralização financeira — características incompatíveis com a ideia de contribuição ocasional ou despretensiosa.

O papel da entidade intermediária

O uso da conta do Clube dos Oficiais funciona como camada de separação entre os arrecadadores e o beneficiário político final. A tática desloca o dinheiro para fora do eixo direto candidato–financiador, dificultando o rastreamento imediato da origem e da destinação dos recursos.

Trata-se de uma estrutura típica de intermediação para dificultar a fiscalização: a entidade recebe, concentra e viabiliza a contratação da propaganda, enquanto os políticos aparecem apenas como “homenageados”.

Convergência com os fatos já apurados

As mensagens reforçam e materializam o que já havia sido apontado em denúncias anteriores realizadas pela A Voz dos Praças: arrecadação informal, ambiente militar, financiamento de propaganda e uso de entidade associativa como instrumento operacional.


Depoimento de Rodney Freire, assessor de Roosevelt Vilela, confirma que os outdoors foram custeados por “vaquinha” de militares, com contratação, pagamento e prestação de contas feitos pelo Clube dos Oficiais do CBMDF.

E mais do que mostrar o método em funcionamento, com linguagem direta, objetivo financeiro definido e meios claramente indicados, o conteúdo das mensagens evidencia que a prática não se limita ao uso de uma única pessoa jurídica.

Ao mencionar explicitamente “entidades parceiras”, a arrecadação passa a revelar uma organização mais ampla, na qual diferentes associações atuam de forma convergente, compondo uma mesma engrenagem financeira. O Clube dos Oficiais deixa de ser um ponto isolado e surge integrado o Clube dos Bombeiros e a CABEN, indicando coordenação, divisão de papéis e atuação conjunta.


Criadas para saúde, lazer e representação, as associações hoje funcionam como palanque político — como se verifica nos próprios sites institucionais.

Esse arranjo amplia a gravidade dos fatos. Não se trata apenas do uso indevido de uma entidade associativa, mas da articulação de múltiplas estruturas institucionais para viabilizar arrecadação, concentrar recursos e sustentar financeiramente a projeção política de determinados agentes.

O que os prints revelam é um sistema organizado, que extrapola iniciativas individuais e aponta para uma atuação coletiva, estruturada e reiterada, voltada à arrecadação de recursos com finalidade político-eleitoral, mediante o desvio de finalidade de entidades associativas e a utilização de suas estruturas como instrumento de financiamento indireto de propaganda política.

Não é homenagem, é método ilícito eleitoral

O que as mensagens deixam claro é que a arrecadação não ocorre de forma dispersa nem ocasional. Ela é pensada, distribuída entre entidades, operacionalizada por intermediários e direcionada a um fim específico: sustentar a exposição pública de determinados políticos do Partido Liberal no Distrito Federal.

Ao envolver mais de uma associação, indicar valores, centralizar recursos e deslocar a execução para fora do beneficiário final, o arranjo ganha escala e proteção. Não é improviso, nem excesso retórico. É método ilícito eleitoral.

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