Roosevelt Vilela fez o que político faz quando quer calar barulho: puxou a máquina do Estado para cima do adversário

O deputado distrital Roosevelt Vilela, integrante da base do governo na CLDF e um dos 15 parlamentares que autorizaram a controversa compra do Banco Master pelo BRB, decidiu cruzar uma fronteira que deveria ser intransponível em qualquer Estado democrático.

Incapaz de enfrentar a crítica no campo político, empurrou uma disputa pessoal para dentro da corregedoria do Corpo de Bombeiros Militar do Distrito Federal e colocou a máquina disciplinar da corporação em movimento como instrumento de pressão contra um adversário político direto: Valdeni Leite da Silva, tenente-coronel da reserva e pré-candidato a deputado federal.

O gesto está longe de ser trivial ou meramente burocrático. Ao converter embate eleitoral em procedimento administrativo, Roosevelt escancara o uso da estrutura do Estado como ferramenta de enquadramento político, deformando a disciplina militar em mecanismo de intimidação institucional contra quem ousa confrontar um mandato e contrariar interesses de quem se move para se manter no poder a qualquer custo.

O detalhe que denuncia a motivação política da demanda

O pedido foi formalizado por ofício do gabinete parlamentar, em 08 de dezembro de 2025, exigindo a abertura de procedimento apuratório disciplinar contra o tenente-coronel da reserva Valdeni Leite da Silva. No documento, o deputado não conseguiu esconder suas reais preocupações e deixou explícito o contexto político-eleitoral que motivou a provocação ao fazer constar, de forma deliberada, a condição de pré-candidato do militar — elemento estranho a qualquer apuração disciplinar regular.


Trecho do ofício usado para sustentar a demanda disciplinar contra Valdeni Leite, com base em falas proferidas em audiência pública no Senado, em 16 de julho de 2025.

A referência não cumpre função técnica nem jurídica; serve para enquadrar o episódio como disputa política e justificar a mobilização da estrutura administrativa contra um adversário, deslocando o conflito do debate público para o interior de uma máquina estatal sobre a qual Roosevelt exerce poder de indicação.


Planilhas apreendidas com Ibaneis Rocha, no âmbito de investigação conduzida pela Polícia Federal e pelo Ministério Público Federal em 2023, apontam Roosevelt Vilela como responsável por indicar cargos na estrutura do CBMDF.

A engrenagem disciplinar acionada a partir de uma indicação política

Dois dias depois, em 10 de dezembro de 2025, a engrenagem institucional entra em funcionamento. O comando do CBMDF — indicado por Roosevelt Vilela — encaminha a demanda, e a estrutura correcional assume o caso. O que era embate público é absorvido pela burocracia: ganha número, rito, sindicância e passa a carregar o risco concreto de punição administrativa.

À esquerda, Roosevelt Vilela; à direita, o coronel Moisés Alves Barcelos, então comandante do CBMDF indicado por Vilela e responsável por encaminhar a demanda à corregedoria.

“Ao provocar a corregedoria para tratar crítica pública como matéria administrativa, cria-se um precedente perigoso: órgãos internos de controle passam a ser acionados como extensões de gabinete, a divergência política é convertida em processo e o procedimento deixa de apurar para cumprir função de desgaste, pressão e silenciamento”, afirmou um especialista em direito eleitoral que preferiu não se identificar.

A origem do incômodo: Leite ocupou o espaço que Roosevelt evita — o da defesa pública dos militares

A iniciativa contra Valdeni Leite nasce menos de qualquer fato concreto e mais de um constrangimento político evidente. Em audiência pública da Comissão de Segurança Pública sobre a PEC 1/2025, realizada em 16 de julho de 2025Leite fez o que parlamentares com mandato sistematicamente evitam: expôs a precarização salarial, denunciou perseguições internas, cobrou promoções represadas, abordou a saúde mental da tropa e deu nome ao custo humano imposto a policiais e bombeiros. Falou de suicídios, de retaliações administrativas e do silêncio de quem deveria representar a categoria.


A partir de 3h de vídeo, Valdeni Leite inicia sua fala durante audiência pública no Senado Federal, realizada em 16 de julho de 2025.

Ao ocupar a tribuna para defender militares da ativa, da reserva e pensionistas, Leite avançou onde Roosevelt recua — limitado ao papel de ventríloquo político do governador Ibaneis Rocha, sem protagonismo próprio na defesa da tropa.


Imagem gerada por IA. Qualquer semelhança com articulações reais de poder é mera coincidência.

O contraste é explícito. Enquanto um se expôs publicamente para defender os militares, o outro reage tentando esconder a própria omissão por meio do uso da máquina disciplinar para constranger quem ousou representar. A demanda, assim, não surge como resposta a excesso algum, mas como reação política a uma coragem incômoda: a de dizer em público aquilo que parte do poder prefere manter abafado nos bastidores.

O detalhe que denuncia o jogo

Na autuação interna, o caso não nasce de ocorrência operacional, nem de fato de serviço, nem de denúncia técnica. Nasce carimbado como aquilo que é: demanda parlamentar.

E aí está o problema central: quando um deputado provoca a corregedoria para “apurar” um adversário político, a sindicância deixa de ser instrumento de disciplina e vira instrumento de perseguição.

Porque o efeito não é “apurar”. É intimidar.

Quando crítica vira “transgressão”

O enredo é conhecido: o alvo critica o parlamentar, o parlamentar transforma crítica em “honra”, e a honra vira procedimento disciplinar. A corporação, em vez de funcionar como filtro técnico, passa a operar como correia de transmissão de disputa eleitoral.

Não é preciso condenar ninguém para o mecanismo funcionar. Basta instaurar.
Basta chamar.
Basta arrastar.

E o recado para o resto da tropa — ativa e reserva — é cristalino: se falar alto demais, vira caso interno.

Traduzindo para o português do pátio: não é disciplina. É porrete.

O que fica para a instituição

Quando a corregedoria aceita esse tipo de demanda, o CBMDF é empurrado para dentro do ringue eleitoral. E isso é corrosivo: a corporação passa a ser vista como ferramenta acionável por quem tem mandato — e não como instituição técnica, blindada de conveniências políticas.

Se há crime, existe caminho: Justiça, com contraditório e regras claras. O atalho via sindicância, provocado por gabinete contra pré-candidato adversário, tem outro nome: instrumentalização do Estado.

E o silêncio oficial?

Até aqui, o que se vê é a burocracia funcionando como se fosse normal. E é exatamente por isso que o caso é grave.

Porque quando o anormal vira rotina, o abuso vira método.

No fim, a pergunta é simples: a corregedoria do CBMDF serve para proteger a instituição — ou para servir de extensão de gabinete do “despotado” Roosevelt Vilela?

Comentários

Facebook

- PUBLICIDADE -